Confessionário SOS

09:58

Por Chay

Bom, não tenho datas específicas, mas comecei a sentir dores na coluna e no pescoço, logo fui para o médico e constataram anemia. Até aí tudo bem, já que anemia é uma doença ligeiramente comum, comecei tratamento, mas não melhorava e refiz uma bateria de exames e foi constatado dessa vez que eu tinha leucemia. Ok, aí você me pergunta: E aí? Aí que uma criança de nove anos que teve uma infância maravilhosa não fazia ideia da dimensão desse problema. Me mudei com a minha família para o Rio de Janeiro. Pois consegui uma vaga num hospital especializado. Passei um dia descansando e partir de então começou, literalmente, a luta. 

Num primeiro momento eu nem sabia o que eu tinha e muito menos o que era um câncer. Uma semana depois eu raparei pela primeira vez o nome escrito tanto na cabeceira quanto nos lençóis e travesseiros do lugar... Elas citavam a doença e pela primeira vez me dei conta do que eu realmente estava passando. Pessoas normais, crianças normais iriam perguntar aos seus pais, gritar, chorar, tentar fugir, como eu vi seguidas vezes ali. Mas eu não sou normal então eu olhei para o teto e passei o resto do dia pensando em quão boa a minha vida tinha sido, na minha família e no quanto estavam sofrendo, minha mãe e meu pai tentavam não demonstrar. E eu seria forte e indestrutível por eles, simples assim. 

Não foi fácil tentar não demonstrar dor quando sentia, mas fui ficando melhor nisso com o tempo e cada novo exame, consulta e etc. Quando minha mãe se mostrava amedrontada eu ia sorrindo, no final das contas eu acabei perdendo o medo, tanto por fingir quanto por conhecer alguém sem o qual não estaria aqui hoje. Vocês leitores que são ateus e ateias desculpem pela citação, mas jamais poderia deixar de falar na grandeza Dele e agradecer por estar viva aqui vos relatando esta história, pois eu sei que nada disso estaria acontecendo sem Deus. 

E seguiram-se meses internada tomando medicamentos. Houve uma época em que eu fiquei muito debilitada e por vezes não sentia a minha perna e cheguei a passar mais ou menos um mês andando de cadeira e me sentindo horrível, não por mim, acredite você ou não, mas pela minha mãe. Eu podia ver no seu olhar a dor e isso sempre foi o que me deixou triste. Já que eu sou uma pessoa muito conformada com tudo. Comecei a fisioterapia e voltei a andar aos poucos. Depois comecei a usar um colete para a coluna porque estava ficando com problemas. Vocês provavelmente estão curiosos sobre a parte do meu cabelo (ou não). Então, eu nunca fui uma menina vaidosa, mas ironicamente meu cabelo não caiu no início, cheguei até a pensar que não cairia mais, só que após algo como 6 meses ele começou a cair vagarosamente se comparado com a maioria que cai na primeira sessão de quimioterapia.

A realidade que eu vivi me tornou uma pessoa muito madura (ou não -q), bom, o suficiente pra aprender a identificar o que realmente é uma situação de emergência, sobre o quanto a sua vida é mais importante do que qualquer outro idiota por aí, aprendi a lidar com olhares de piedade, nojo, carinho, inveja... Pessoas são instáveis, eu também, mudo de humor constantemente mas acho que tudo que eu vivi teve seu devido propósito e hoje sei canalizar minha raiva, julgar e classificar melhor toda situação e isso me faz sentir bem.

Atualmente tenho 17 anos, sou saudável e esse ano cursarei o 2ª ano do ensino médio, já que perdi 1 ano letivo pelas internações e etc. E é isso meus queridos amiguinhos. Deixo vocês com uma frase muito sábia: ''Ainda houve boatos de que eu estava na pior...Se isso é estar na pior, HÁAAAAAN, que que quer dizer tá bem né?'' -q

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